Pular para o conteúdo principal

Operação Condor e a perseguição aos trabalhadores

Linha fina
Ato público no Sindicato discutiu repressão coordenada dos regimes militares que varreram o continente sul americano entre os anos 1960 e 1980; Brasil ainda espera julgamento de terroristas de Estado
Imagem Destaque

São Paulo – "O projeto político e econômico que caracterizou as ditaduras latino americanas teve como alvo primordial a classe trabalhadora. A repressão às lutas sociais foi claramente a condição necessária para poder imprimir este programa."

A afirmação foi feita pela pesquisadora argentina do Centro de Estudos Legais e Sociais Luz Maria Palma durante ato público que discutiu o impacto da Operação Condor sobre os trabalhadores e suas organizações sindicais. O evento foi sediado pelo Sindicato, na quinta-feira 24.

A Operação Condor foi uma aliança político-militar firmada por diversos regimes militares da América do Sul – como Brasil, Argentina, Chile, Bolívia, Paraguai e Uruguai – em conjunto com os Estados Unidos, entre os anos 1970 e 1980, com o objetivo de coordenar a repressão a opositores dessas ditaduras e eliminar líderes de esquerda instalados nos países do chamado Cone Sul.

Na Argentina há dados mais consistentes sobre a perseguição aos trabalhadores durante o último período ditatorial (1976-1983) e apontam que essa classe foi o alvo principal do aparato repressivo, integrando 65% dos cerca de 30 mil desaparecidos políticos.

Luz explica que a ideia por trás da repressão aos trabalhadores era o massacre das organizações de base, como sindicatos, e dessa forma pavimentar, sem resistência, medidas econômicas responsáveis, dentre outros pontos prejudiciais, pelo arrocho salarial e pelo corte de direitos trabalhistas. 

Mas essa política econômica implantada de maneira brutal teve consequências negativas não só para os empregados. "As medidas causaram uma reestruturação recessiva nos setores industriais e o aumento da concentração de renda. Durante o período militar argentino, mais de 20 mil fábricas fecharam as portas. O produto bruto do setor caiu 20% e a indústria deixou de ser o núcleo dinamizador das relações sociais econômicas no país", explica Luz.

Liderança brasileira – De acordo com o presidente da ONG Movimento de Justiça e Direitos Humanos, o advogado Jair Krischke, a Operação Condor foi liderada pelo Brasil. Seu batismo, ainda segundo Krischke, ocorreu em uma reunião em Santiago, no Chile, em 1975, e da qual o Brasil participou com militares que se declararam apenas observadores.

"Essa sempre foi a tática dos militares brasileiros: nunca deixar suas digitais. Mas o batismo em 1975 não significa absolutamente que ele já não existisse na prática. A criatura já existia antes disso", afirma.

Krischke acrescenta que os militares brasileiros se utilizaram da estrutura da Interpol no país para implantar um aparato repressor político internacional. Ele conta que, ao mesmo tempo, o Brasil criou um centro de inteligência dentro do Ministério das Relações Exteriores.

"A cabeça que criou isso foi o diplomata Manoel Pio Corrêa. Quando era embaixador do Uruguai, este tipo criou todo um serviço de inteligência no serviço diplomático que atuava junto  das autoridades daquele país pedindo para que apertassem os exilados brasileiros."

Ele cita ainda como exemplo do protagonismo brasileiro na Operação Condor uma conferência sobre segurança nacional realizada em Assunção, capital do Paraguai, que contou com o então chefe de Segurança Nacional e futuro presidente da República, o coronel João Batista Figueiredo.

"Todo o aparato repressivo chegava no bojo diplomático brasileiro. A embaixada do Brasil no Paraguai, em determinado momento, abrigava 236 militares brasileiros. O Brasil formou praticamente todos os agentes repressivos do Cone Sul, com exceção dos argentinos, que já sabiam fazer o trabalho", afirma Krischke.

Igreja Católica – A ditadura argentina, inclusive, contou com a ajuda de outros setores sociais para o ofício da repressão política. Luz Maria cita a história uma ilha de possessão do episcopado de Buenos Aires, localizada no rio Tigre, chamada El Silencio.

Em 1979 uma comissão interamericana de direitos humanos foi formada para averiguar as denúncias cada vez mais consistentes e abundantes sobre as mortes e desaparecimentos políticos na Argentina. Para acobertar os crimes de Estado, os militares decidiram transferir os presos políticos dos já conhecidos centros de tortura – como a famigerada Escola de Mecânica da Armada. E um dos locais que os esconderam foi a ilha El Silencio, cedida pela própria igreja católica argentina.

Julgamentos – Nas últimas décadas, os países do Cone Sul iniciaram processos de julgamento de agentes repressores e líderes militares responsáveis pelos crimes de Estado durante as ditaduras.

Luz Maria, no entanto, ressalta que ainda é um desafio começar a pensar na responsabilização dos empresários envolvidos na repressão.

A maior exceção no julgamento de criminosos de Estado é o Brasil. Isso foi lembrado pelo presidente da Confederação Sindical Internacional (CSI), João Felício.

"Aqui não tem nenhum militar na cadeia, como aconteceu no Uruguai, na Argentina e no Chile. Quando se fala em descobrir responsáveis pelo assassinato de pessoas durante a ditadura, imediatamente vem o abafa da imprensa brasileira, do STF, do Congresso Nacional, que não aceitam levantar absolutamente nada sobre este capítulo horroroso que nós temos. O meu sonho é ver um general preso no Brasil."

Leia mais
> Ditadura no Brasil foi um atraso histórico


Rodolfo Wrolli - 25/7/2014

seja socio

Exibindo 1 - 1 de 1